Vitória e o futuro que ainda não criamos: Reflexões sobre um ecossistema em suspenso

Outro dia, respondi a um questionário de um ator que está fazendo uma pesquisa sobre o ecossistema da capital. Aproveitei para converter as minhas respostas numa reflexão que compartilho aqui no blog.

Vitória vive um paradoxo curioso. Temos pessoas talentosas, instituições importantes, empresas que já carregam parte da economia nacional e um território pequeno o suficiente para permitir proximidade. Ainda assim, nossa inovação se desenrola em ilhas. Falta diálogo. Falta confiança. Falta a compreensão de que nenhum ecossistema prospera quando cada ator atua como se estivesse sozinho.

A ausência de um plano coletivo fragiliza os movimentos. Sem propósito compartilhado, os esforços se dispersam. E quando não conhecemos o valor da colaboração, seguimos repetindo um modelo competitivo que não produz transformação real.

Os dez pontos identificados no Mapeamento dos Habitats de Inovação do Espírito Santo, levantados na pesquisa que a EDP me encomendou, continuam atuais. Nada mudou porque, essencialmente, não mudamos o jeito de nos relacionar.

A desaceleração do movimento

Nos últimos anos, sinto que o movimento de inovação de Vitória perdeu força – parte pela ausência de coordenação municipal, parte por estruturas que se fecham em si mesmas. O Movimento Capixaba pela Inovação (MCI), por exemplo, deveria ser ponte, mas muitas vezes se apresenta como uma cúpula.

Faltam transparência, comunicação clara e critérios públicos. Os mesmos atores permanecem próximos de recursos públicos, enquanto novos empreendedores encontram desafios de acesso.

Sem trocas reais, o ecossistema não se renova. E um ecossistema que não se renova estagna ou pior, anda para trás.

O que significa inovar na nossa realidade?

Para mim, inovação é um lugar de encontro. É integrar diferentes atores em torno da transformação econômica e social dos territórios. É transformar pesquisa em prática, laboratório em mercado, intenção em impacto.

Inovar é criar condições para que saberes circulem, para que talentos se encontrem e para que o desenvolvimento seja, de fato, compartilhado.

Em Vitória, o que falta é simples e difícil ao mesmo tempo: senso de colaboração e pertencimento.

Onde estão nossas forças?

Apesar das tensões, Vitória tem vocações muito claras:

  • Energia limpa e transição energética, impulsionada por cadeias industriais e pressões por descarbonização.
  • Saúde e biotecnologia, apoiada em hospitais estruturados e pesquisa aplicada.
  • Economia criativa e digital, alimentada por talentos locais, comunicação, audiovisual, games, design.
  • Logística e portos, uma das joias técnicas da capital.
  • Turismo e serviços inovadores, com potencial para experiências inteligentes.
  • Governo digital, onde já acumulamos aprendizados e bons experimentos, principalmente na gestão estadual atual.

Essas áreas, juntas, formam uma espinha dorsal para um futuro possível, desde que exista coordenação.

E como ficam as grandes indústrias?

Petrobras, Vale, Samarco, o setor de rochas ornamentais, o agro capixaba — todos seguem centrais para a economia. Mas o mundo mudou, e eles precisam mudar junto.

As agendas globais exigem:

  • rastreabilidade;
  • transição energética;
  • automação;
  • tecnologias ambientais;
  • inovação aberta;
  • redução de impacto;
  • reposicionamento estratégico.

A ressignificação da economia capixaba depende exatamente da convergência entre setores tradicionais e emergentes.

De quem queremos aprender?

Hoje, não considero que haja um ecossistema externo capaz de servir como referência direta para nós.

Segundo estudo recente, divulgado na Conferência Anprotec em outubro, o Espírito Santo ainda está entre os três estados sem um Parque Tecnológico consolidado – e isso diz muito sobre nossa maturidade sistêmica.

Inspirar-se é saudável.
Repetir modelos sem internalizar aprendizados é perder tempo.

Vitória precisa criar suas próprias referências. Não há ecossistema vibrante sem identidade territorial.

Recentemente, o Parque Alvo, do município de Serra, foi inaugurado, depois de 15 anos de intensos esforços, que somente caminharam mais nos últimos tempos, quando os entes aprenderam a dialogar e andar mais juntos. 

Ações que fazem diferença (e que poderiam ser ampliadas)

O ESX é um exemplo bonito de como política pública pode aproximar pessoas. O evento já é a principal evento da agenda de inovação do estado e se tornou referência no país. Cresceu muito nos últimos três anos. Dá gosto de ver e participar.

No caso da Poliniza Projetos, nossa atuação como ICT privada só foi possível porque os mecanismos públicos nos permitem apoiar a estruturação de projetos de inovação de startups e empresas tradicionais, além de viabilizarmos diversas iniciativas por nos relacionarmos com o ecossistema há mais de dez anos.

Conectamos as pontas, fortalecemos o desenvolvimento de novos negócios, envolvendo instituições de ensino e pesquisa, bolsistas, habitats, órgãos de fomento, governo e prestadores de serviço.

Ações que de fato convocam os entes para viver a jornada real da inovação ainda são pulverizados.

O futuro que desejamos

Um ecossistema conectado, transparente e confiável. Com senso de pertencimento.
Com oportunidades distribuídas. Com colaboração real. E com a coragem de criar as nossas referências.

Vitória pode ser mais atuante. Pode resgatar o movimento que já existiu. Pode ser inovadora. Pode ser exemplo. Mas só será, de fato, quando entender que ecossistemas são feitos por todas as pessoas – e de encontros com desejo de fazer acontecer as transformações reais em nosso entorno.

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